<T->       
          Esta fora estranha
          Trajetria de uma autora
    
          Ana Maria Machado      
            
<F->
Impresso Braille em 2 partes, 
na diagramao de 28 linhas por
34 caracteres, 1 edio da 
Livraria e papelaria Saraiva 
S.A., So Paulo, 2006
<F+>

          Primeira Parte

          Ministrio da Educao 
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
          22290-240 Rio de Janeiro
          RJ -- Brasil
          Tel.: (21) 3478-4400
          Fax: (21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~,
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
<P>
          Copyright (C) Ana Maria 
          Machado, 1996.
      
          Editor: Henrique Flix
          Assistente editorial: Shirley  
          Gomes
      
          Todos os direitos reservados
          Livraria e Papelaria Saraiva S.A. 
          So Paulo, 2006.
          Av. Marqus de So 
          Vicente, 1697  Barra Funda
          01139-904  So Paulo  SP
          Fone: (11) 3613-3000
          Fax: (11) 3611-3308  
          Fax vendas: (11) 3611-3268
          ~,www.editorasaraiva.com.br~, 
<p>      
                                I
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Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
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 Machado, Ana Maria, 1942-
  Esta fora estranha : trajetria de uma autora / Ana Maria Machado. -- So Paulo : Livraria Saraiva, 2006.
 
  1. Escritores brasileiros -- Biografia 2. Machado, Ana Maria, 1942- III. Ttulo. IV. Srie

                   CDD-928.#fii

 ndice para catlogo sistemtico:
  1. Escritores brasileiros : Biografia 928.#fii
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  "Lendo Ana, contadora de histrias de primeirssima qualidade, uma das coisas que logo atraem  a presena constante de uma formidvel viso crtica da nossa sociedade e do mundo -- uma viso to contagiante que, quando o leitor  jovem, bem depressa dispensa tutelas."

<R+>
*Lygia Bojunga Nunes, escritora* 
<R->

  "Ana se apaixona pelas pessoas e por tudo o que faz.  uma permanente adolescente em termos de emoes e abertura para a vida.  consciente, batalha por sua condio, faz luta poltica, mas no perde aquela aparente fragilidade feminina. Ao mesmo tempo,  muito forte, capaz de sair de qualquer buraco, zerar tudo e surpreender. Vai ao fundo do poo e, de repente, emerge criana e recomea."

<R+>
*Zuenir Ventura, jornalista e escritor*      
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                             III
  "A obra de Ana  um marco de renovao da linguagem na literatura infantil brasileira. [...] Realiza uma literatura sem adjetivos -- palavras que ela mesma gosta de enfatizar --, em que as crianas se reconhecem como interlocutores."

<R+>
*Eliana Yunes, professora de literatura e ensasta*
<R->

  "Nossa obra tem em comum uma cumplicidade sem limites com a criana, e uma admirao sem fim pela criana criativa, irreverente, perguntadeira. Tem ainda em comum nosso horror ao autoritarismo,  mesmice, ao conformismo."

<R+>
*Ruth Rocha, escritora*
<R->

  "O que eu sei de Ana, fora a grande escritora que todos conhecemos,  que ela  uma pessoa extremamente atenta, generosa e musical. Fao uma msica e penso: 
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ser que a Ana Maria vai gostar dessa?"

<R+>
*Chico Buarque, msico e compositor*
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<R+>
Depoimentos extrados do livro Ana & Ruth. Rio de Janeiro, Salamandra, 1995.
<R->

  Se voc gostou de conhecer um pouco da vida de Ana Maria Machado lendo *Esta fora estranha*, vai adorar navegar em outros mares de informao: os *links* existentes no *site* da autora, como *Cadernos de notas*, onde  possvel encontrar mais informaes e curiosidades sobre esta premiada escritora, incluindo sua biografia.
  Alm disso, passeando pelo 
 *site*, voc vai ficar a par das novidades sobre a carreira de Ana Maria Machado, ver outras fotos e ler mais sobre os inmeros ttulos j publicados para gente grande e para gente crescendo...
                                V
  Acessando o *site*, voc tambm vai poder conhecer as respostas da autora para as perguntas mais freqentes de seus leitores, alm de, se desejar, escrever a sua prpria pergunta, enviando-a por *e-mail*.
  
  O endereo do *site* :
  ~,www.anamariamachado.com.br~,
  Boa navegao!

<R+>
 Ana Maria Machado
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  *Ser leitora e escritora  uma escolha ligada ao intenso prazer intelectual que essas atividades me do. Escrevo porque gosto da lngua portuguesa, gosto de histrias e conversas, gosto de gente com opinies e experincias diferentes, gosto de outras vidas, outras idias, outras emoes, gosto de pensar e de imaginar. Em todo esse processo, a leitura foi fundamental. E, seguramente, eu teria lido muito menos, se no 
<P>
estivesse sempre cercada de pessoas que falavam com entusiasmo de livros e autores*. 

  Os fs da obra de Ana Maria Machado se deliciaro com as histrias de sua vida. Detalhes de sua infncia e da trajetria que a tornou uma das maiores escritoras do Brasil esto presentes neste livro-depoimento, em que a autora estabelece um contato pessoal e cmplice com o leitor.
  Lanado em 1 edio, em 1996, *Esta fora estranha* recebeu o Prmio Jabuti 1997 de Melhor Livro Juvenil. Nos anos seguintes ao lanamento desta obra, vrios acontecimentos de grande importncia pontuaram a j ento consagrada carreira de Ana Maria Machado.
  Em 2000, Ana ganhou o Prmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantil mundial. Antes dela, apenas outra autora brasileira, 
<p>
                            VII
Lygia Bojunga Nunes, havia sido agraciada com esse prmio.
  Em 2001, a Academia Brasileira de Letras lhe concedeu o maior prmio literrio nacional, o Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Depois desse prmio, em 2003, Ana Maria Machado foi eleita para ocupar a cadeira nmero 1 da instituio. Pela primeira vez na histria, uma autora de grande destaque na literatura infanto-juvenil brasileira era escolhida para a Academia.
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<R+>
 Mensagem ao Leitor

 Prezado(a) Leitor(a),
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  Este livro  de uso coletivo. Como, alm de voc, muitos leitores tero acesso a ele, certos cuidados ao utiliz-lo so muito importantes:
<R+>
 manuseie-o com as mos limpas;
 evite comer ou beber enquanto estiver lendo;
 procure mant-lo bem conservado, sem rabiscos, dobras e sem recortes; e
 ao concluir a leitura, devolva-o para a biblioteca.
<R->
  Contamos com sua colaborao.
  Boa leitura.
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                              IX
Prefcio

  De vez em quando, o esperado acontece: o escritor escreve um livro, o editor publica, os alunos lem.
  O inesperado, s vezes, tambm costuma acontecer: o professor convida o autor para ir  escola conversar com os alunos.
  A partir de 1977, quando publiquei meu primeiro livro, tenho vivido alguns momentos esperados (escrevo pouco, culpa da lentido e preguia) e inmeros inesperados. Nestes, sempre tem me emocionado o interesse do leitor pelos caminhos do autor. Pelos segredos daquele livro, ali ao alcance da mo, pronto para ser autografado, e de todos os outros, anteriores e futuros. Sobretudo os futuros.
  Nos livros da coleo *Passando a Limpo*, cada autor vai tentar conversar com o leitor como se estivesse na sala de aula, num daqueles encontros inesperados, ou na sala da casa de um deles, mais inesperado ainda.
  Cada autor vai tentar se lembrar dos sonhos passados, dos planos, dos trabalhos. E imaginar os futuros.
  Vai tentar no s responder s possveis perguntas do leitor, mas tambm -- e principalmente -- perguntar. Pois os livros so perguntas, mais que respostas. Indagaes, questionamentos.
  Em *Esta fora estranha -- trajetria de uma autora*, quarto volume da coleo *Passando a Limpo*, Ana Maria Machado, escritora, jornalista e tradutora, pergunta mais que responde. Indaga, questiona. Captulo aps captulo, pargrafo aps pargrafo.
  Tenho certeza de que o leitor, no burburinho da sala de aula, ou no aconchego de sua casa, haver de comemorar a inesperada descoberta dos segredos e mistrios da autora-personagem. Alguns deles, 
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                              XI
apenas, pois os outros, ciosa, ela guarda para os livros futuros. A sete chaves.

<R+>
*Vivina de Assis Viana*
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                            XIII      
Sumrio Geral

Primeira Parte

Ora, direis, ouvir
  histrias :::::::::::::::: 1 	
Primeiras histrias ::::::: 24
Felicidade clandestina :::: 46

Segunda Parte

A palavra escrita ::::::::: 71
A palavra chama ::::::::::: 96
Como uma onda no mar :::::: 118
Obras da autora ::::::::::: 149
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<R+>

 *Por isso uma fora 
 *me leva a cantar.
 *Por isso essa fora estranha...
 *Por isso  que eu canto,
 *no posso parar,
 *por isso esta voz, 
 *esta voz tamanha*...

(*Fora estranha*, Caetano Veloso.)
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<1>
<Testa fora estranha>
<T+1>      
<R+>
Ora, direis, ouvir histrias...
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 *Quando era criana
 *Vivi, sem saber,
 *S para hoje ter
 *Aquela lembrana*.
      
 * hoje que sinto
 *Aquilo que fui.
 *Minha vida flui,
 *Feita do que minto*.
      
 *Mas nesta priso,
 *Livro nico, leio
 *O sorriso alheio
 *De quem fui ento*.
     
<R+>
(*Fernando Pessoa*.)
<R->
                                          
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  Msica pra mim era parte do mundo natural -- soprava e passava. Como a brisa ou o barulho das ondas que me embalavam na casa de praia. Pura natureza, som de grilo na noite, manh de passarada, voz de minha me ou de meu pai pelos cantos da casa. Hoje eu sei que tenho que me ligar a uma tecnologia para ouvir Mozart, Tom Jobim ou Miles Davis ou tenho que sair de casa para ir a um show do Chico ou a um concerto da Sinfnica. Sou consciente dos sculos de herana cultural implcita at mesmo na msica que acompanha meu quotidiano enquanto ouo o violo do Loureno, ou quando ele e os amigos se renem em nossa casa em Manguinhos para ensaiar e preparar um novo disco ou show. Vivo imersa em msica, como no ar. Mas sei que, se o ar  feito diretamente por Deus (ou seja l que nome se d ao princpio csmico da criao), para a msica Ele precisou de ajuda e teve que recorrer a um instrumento imperfeito -- os homens. 
  Poderia dizer o mesmo dos quadros. Para mim, no havia muita diferena entre uma pintura emoldurada e a paisagem que eu via da janela em criana, desde o alto do morro de Santa Tereza, com a baa de Guanabara l em baixo, coalhada de ilhas e barquinhos, cercada de montanhas. Ou nas festas de So Joo, quando parecia que as janelas acesas da cidade viravam bales e subiam aos cus atrs das estrelas, como fagulhas de fogueira. Mais tarde encontrei isso na pintura de Guignard, na *Noite estrelada*, de Van Gogh. Mas j conhecia, de pequena, ao vivo. Como reconheci nas marinhas de Pancetti e Turner os barcos que na minha infncia habitavam as extenses de mar e areia onde eu brincava debaixo do imenso cu, cujas nuvens, s vezes, se amontoavam em castelos e torres ou se enfileiravam como carneirinhos ao sabor do vento.
<3>
  A mesma coisa aconteceu com os livros. Havia muitos na minha casa. Mesmo antes de poder ler, eu sabia que eles guardavam histrias e coisas to fascinantes que, diante de um livro aberto, meu pai e minha me ficavam totalmente absortos e a gente tinha que repetir o que estava perguntando, antes que eles conseguissem responder. Muitas daquelas histrias eles me contavam, liam para mim, resumiam, mostrando os personagens e situaes nas figuras. Mas eu no achava que livros fossem nada de especial, fora do normal ou assustador. Para mim, eram s caixas de guardar histrias, to interessantes quanto todas as que me cercavam o tempo todo, sem precisar de livro para ningum contar. 
  Todo mundo  minha volta gostava de falar e contar caso. Era s ouvir... E foi ouvindo que eu aprendi uma das histrias que mais me atraam -- e que pode muito bem ser por onde agora eu comece esta conversa: a histria de minha famlia.
  As grandes civilizaes orientais, em sua sabedoria, tm no culto aos antepassados e no respeito aos ancestrais uma de suas pedras de toque. Para os romanos, esse culto se materializava no fogo sagrado que toda famlia devia manter aceso em casa, oferenda aos deuses lares -- de onde vm as palavras *lar* e *lareira*, sinnimos de aconchego familiar em casa gostosa. ndio faz questo de saber onde esto enterrados os crnios dos que o precederam. Ou seja, com tantos exemplos, no  de espantar que eu tivesse enorme curiosidade em saber tudo dos meus avs e bisavs, na tentativa inconsciente de responder  pergunta que h milnios os homens se fazem em todos os cantos da terra: de onde viemos?
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  Metade de mim  portuguesa. A metade paterna. Meu av Rozendo, pai de papai, nasceu na aldeia de Souza, perto do Porto, no norte de Portugal. Era farmacutico e veio para o Brasil j adulto, tentar a vida. Trouxe muito pouca coisa, alm do carter, do estudo e da vontade de trabalhar. E das histrias de uma aldeia de lavradores, com uma igreja de relgio na torre, prxima  casa em que vivia nossa gente, a "famlia dos marinheiros": uma casa entre laranjeiras na qual, em cima de uma grande mesa na cozinha, havia sempre um po redondo feito em casa, de crosta crocante, com uma faca ao lado. Das pouqussimas coisas que restaram de sua infncia, tenho comigo dois livros, gramticas latinas em bela encadernao de couro, recheadas de caricaturas de professores, desenhos, e anotaes feitas a lpis no sculo passado pelo menino Rozendo, ainda l do outro lado do Atlntico.
  Acabou se estabelecendo em Petrpolis, uma cidade encantadora, num lugar belssimo, na serra junto ao Rio de Janeiro. L o imperador passava os veres, enquanto condes, princesas e marqueses andavam de charrete pelas ruas perfumadas de jasmim, ao longo de rios cruzados por pontes vermelhas de madeira e bordejados pelo azul das hortnsias. 
<5>
Nesse cenrio, meu av se apaixonou por uma moa muito bonita, sem nenhum ttulo de nobreza, mas de esmerada educao -- que lhe permitia freqentar a corte sem fazer feio, sendo fluente em francs, sabendo tocar piano e pintar... Chamava-se Hormezinda e ia virar minha av Nenm, a quem eu em pequena examinava com ateno infantil, sem nunca conseguir descobrir naquela mulher imponente e cheia de corpo, de presena marcante e personalidade dominadora, o mais leve vestgio de bebezinho que explicasse o apelido ou qualquer trao de moa bonita que justificasse a fama de beldade da Corte.
  Vov Nenm nascera em Petrpolis, mas era filha de portugueses. O pai dela, o velho Almeida, de cabea e barba branquinhas quando o conheci, era o heri de uma das mais fascinantes de todas as histrias de minha infncia. Viera para o Brasil aos 9 anos, sozinho, no poro de um navio cheio de imigrantes, recomendado aos cuidados de um vizinho da aldeia, que o esperava no porto do Rio. Trabalhando de sol a sol, de domingo a domingo, ano aps ano, acabou fornecedor de frutas e verduras para o imperador, alm de dono da maior loja de ferragens do Estado do Rio. Deu estudo de qualidade  filharada e construiu um patrimnio respeitvel, que o tempo e os descendentes se encarregaram de dilapidar.
  Minha outra metade  brasileira da roa, at onde d para se saber, em sucessivas geraes que lavraram, capinaram e plantaram a terra, entre bugres e caboclos no norte do Esprito Santo, ali por Nova Vencia e So Mateus. Meu av Ceciliano, pai de minha me, era filho de um peo que trabalhava na fazenda de um primo importante -- o Baro dos Aimors --, porm decadente e sem recursos, reduzido a botar a parentela para se esfalfar no eito ou no cultivo do caf. Menino esperto e com notvel talento matemtico,
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o pequeno Ceciliano foi reconhecido por uma srie de professores, que logo percebiam que o aluno aprendia tudo o que tinham para lhe transmitir. Sucessivamente encaminhado a um mestre mais capaz, foi da fazenda para So Mateus, de l para Vitria, para Petrpolis e para o Rio, onde se formou em Engenharia, no Largo de So Francisco. Trabalhando para custear os estudos, dava aulas de aritmtica, lgebra e trigonometria e varava as noites em jornais, como revisor. A cada etapa de curso que terminava, mandava buscar na fazenda um irmo mais moo, para que estudasse tambm, com o compromisso de fazer o mesmo para ajudar o irmo seguinte. Tudo isso com imenso sacrifcio. Formado, foi abrir estradas de ferro pelo Brasil afora. Vivo muito cedo, e com trs filhos, voltou de passagem  fazenda onde fora criado. L encontrou Ritinha, uma morena de porte altivo e olhos bonitos, filha do Baro, prima distante que no via desde que a deixara, criana pequena, havia tantos anos. Casou com ela, moa simples da roa, que mal sabia ler, mas era exmia nas prendas domsticas e rurais: cozinhava, fazia doces como ningum, conhecia todos os segredos de lingias, queijos e conservas, entendia de plantas e bichos, dominava a arte da medicina caseira, bordava, costurava, fazia croch, tric e *frivolit*... Depois de casados, sempre um professor exigente e dedicado, ele se encarregou de completar a educao formal dela. Mas nem carecia. Vov Ritinha era uma biblioteca oral. Ningum sabia mais histrias do que ela, ningum conhecia melhor toda a tradio que se transmitia de uma gerao para outra pelo interior do Brasil desde que comeamos a existir. 
  Alm dessa mistura de p na terra e trabalho imigrante, soldada por uma liga de valorizao da educao e amor aos livros, sinto que tambm me ficou dessa gerao um patrimnio feminino muito especial -- os modelos de mulher que minhas avs foram e marcaram diretamente a meus pais e a mim. Gostaria de me deter um pouco nisso, porque  muito sutil a forma como me influenciaram, mas sei dentro de mim como foi poderosa. Cada uma  sua maneira, minhas duas avs foram mulheres muito independentes e de personalidade prpria. 
  No caso de vov Nenm, isso era muito evidente. De gnio forte, como se dizia, ela no hesitava em brigar e gritar para defender seus pontos de vista. Era capaz de quebrar toda a loua ou os cristais da casa no calor de uma discusso e,
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quando no estava de acordo com algo, sempre se manifestava sem se deixar intimidar por qualquer adversrio. Certa vez, discordando dos valores defendidos em um sermo na missa de domingo, passou a mo no telefone e, de padre em padre, conseguiu chegar ao Cardeal Dom Jaime Cmara com seu protesto justificado. Brandindo a ameaa de no domingo seguinte chamar a imprensa e ir com cartazes para a porta da igreja, logrou que Sua Eminncia desse instrues expressas para que fosse feita a retificao desejada, em toda a extenso pleiteada -- no apenas do alto do plpito, mas por escrito, num folheto chamado *Encontro*, que se distribua dominicalmente em todas as parquias cariocas. Os detalhes da histria so saborosos, mas dispersariam minha narrativa agora. Basta dizer que vov Nenm tinha toda razo. E nenhum medo de autoridade. Alm disso, era inteligentssima, com perfeita noo de estratgia. Maquiavlica, diriam dela se fosse um poltico. Durante muitos anos, teve uma coluna num jornal de Petrpolis, sob o pseudnimo de Marutsa, onde defendia seus pontos de vista polmicos e usava a palavra para ultrapassar as barreiras impostas  condio feminina na poca. Se meu pai mais tarde foi ser jornalista e poltico, um grande orador e tribuno inspirado, cheio de argumentos, sei perfeitamente a quem saiu, em sua intimidade com a palavra e domnio verbal. Coisas de minha av Nenm, uma mulher claramente  frente de seu tempo.
  J quem olhasse vov Ritinha, jamais teria essa impresso e seria capaz de ver nela apenas uma mulher doce que fazia doces, uma dona de casa submissa e apagada. Ledo engano. Na maciota, conversava com meu av e, em doses homeopticas, ia inculcando nele os projetos futuros do casal e da famlia. Mais que isso, com sua enorme disposio para o trabalho, punha a mo na massa para fazer o que queria, sem depender dos outros. Quando cismou de comprar uma terra na beira da praia em Manguinhos, como sabia que os parcos recursos de que dispunham jamais permitiriam uma ousadia dessa monta, levou um ano fazendo cocadas e ps-de-moleque que arrumava em imaculados caixotinhos forrados de papel de embrulho, com barra recortada no capricho, e mandava os filhos pequenos venderem na estao quando o trem chegava. De moeda em moeda, juntou o suficiente para iniciar na beira da praia o que virou nossa histria familiar. O quintal da casinha de taipa, piso de 
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terra batida e telhado de palha foi se estendendo, abrigando as casas dos filhos  medida que iam crescendo, e depois as dos netos, que hoje j levam seus netos para brincar na areia e tomar banho de mar em frente das rvores que ela plantou. Com ela aprendi, entre tantas outras coisas, que quando uma mulher quer uma coisa no tem que pedir nada a ningum: trabalha para ganhar o dinheiro e faz o que quer, do jeito que quer, sem ter que pedir licena nem prestar satisfao aos outros. Quer dizer, muito antes do discurso da mulher liberada, eu tive foi o exemplo da independncia. Graas ao trabalho e ao estudo -- como ela fez questo de que ocorresse com as filhas. Minha me, filha dela, fez curso normal e era professora. Quis fazer faculdade de microbiologia, no havia no Esprito Santo, diplomou-se em farmcia. Foi trabalhar no servio pblico, havia melhores chances para advogados, acabou fazendo tambm a faculdade de direito. E quando a melhor oportunidade surgia para quem prestasse concurso e fosse para o Rio de Janeiro, numa poca em que moa de famlia no saa da casa paterna, ela teve todo o apoio familiar para seguir sua carreira onde fosse mais conveniente, indo morar sozinha num pensionato. Tenho imenso orgulho dessa linhagem de mulheres que me precederam, enorme carinho por sua batalha silenciosa numa sociedade hostil a esse tipo de comportamento. De certo modo, me sinto como numa corrida de revezamento, em que me passaram um basto que tenho que levar mais adiante e entregar a minha filha. No posso virar moa cordata, boazinha e obediente, para no jogar fora o exemplo delas na lata de lixo do tempo.
  Com essa famlia, no  de espantar que eu vivesse cercada de histrias e livros. Mas eles me chegavam de maneiras diferentes, seguindo a especialidade de cada um. 
  Vov Rozendo contava histrias de Portugal que falavam de *midos* e *rebuados*, em vez de *crianas* e *balas*. Transformava sua farmcia num lugar encantado, em que os vidros e potes tinham o que dizer, as inmeras gavetinhas guardavam segredos e os rtulos e reclames (como se chamava a publicidade naquele tempo) eram povoados de histrias e personagens. Na caixa de Emulso de Scott, um fortificante  base de leo de fgado de bacalhau, um pescador curvado carregava nas costas um peixe imenso e servia
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de ponto de partida para incrveis histrias de pescaria, neblinas, perigos, navegaes. Em uma figura num cartaz, duas mos seguravam um leno que tentava amordaar um sujeito que berrava: "Larguem-me, deixe-me gritar!  O Conhaque So Joo da Barra..." (no lembro o resto). Havia o Dr. Ross, que tinha plulas de vida (que depois, para mim, mudou de nome e virou o Dr. Caramujo, do Reino das guas Claras). Um passarinho cantava no Emplastro Sabi. Quatro mulheres, lado a lado, faziam um desfile de caretas para Lu-go-li-na. O sabonete Kanitz, com seu perfume de cravo, trazia lricas lembranas da aldeia distante e de tias e primas que eu no conhecia. Entre ungentos mgicos (como o Blsamo Bengu e outros cremes negros e canforados guardados em potes), ervas para tisanas, vidrinhos coloridos com poes, e uma infinidade de cpsulas e drgeas feitas na hora aps cuidadosas pesagens numa balancinha dourada, havia uma beberagem que salvava da morte e era to famosa que at a celebravam pelo mundo afora, em versos nos bondes: "Veja ilustre passageiro / o belo tipo faceiro / que o senhor tem a seu lado./ E no entanto, acredite,/ quase morreu de bronquite./ Salvou-o o Rum Creosotado". Quem s conhece drogaria no pode imaginar o que era a farmcia do meu av, com suas prateleiras de madeira at o teto, suas fieiras de gavetinhas, seus potes de loua cheios de ramagens e letras enfeitadas, seu espao miraculoso, repleto de alvios, salvaes e remdios para males. Mais que uma botica, era uma caverna mgica, um laboratrio de alquimista e mago. Nesse territrio, reinava soberano meu av Rozendo, enquanto me presenteava com rebuados de alcauz e narrativas encantatrias, temperadas com um humor muito peculiar. Tinha um fantstico acervo de provrbios que at hoje me acompanham (tipo "o olho do dono estruma o campo", ou "pio gabado vira carrapeta") e um repertrio de fados mais fantstico ainda, herdado por meu pai, chorosas melodias que ouvi regularmente como cantiga de ninar, em contraponto s marchinhas carnavalescas que eram o domnio da minha me. Mas vov Rozendo morreu quando eu tinha sete anos, e as lembranas dele so poucas e tnues.
  J com vov Nenm tive um longo convvio, s vezes algo amedrontado de minha parte, por causa das exploses dela. Mas era uma mulher fascinante. E se, a partir da minha 
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adolescncia, trocamos livros e leituras num dilogo sem fim (ramos ambas apaixonadas por Julien Sorel, de *O vermelho e o negro*), na minha infncia as histrias que vinham dela eram mais teatrais que literrias. Ela no contava um texto, encenava um espetculo. Tinha um lado festeiro de fazer inveja a qualquer produtor de eventos desses que hoje em dia ganham a vida profissionalmente com isso.
  Semanas antes do aniversrio de um neto, vov Nenm comeava a fazer dzias de fascinantes bonecos de retalhos, armados em torno a um corpo de arame. Todos diferentes, mas seguindo o mesmo tema para cada festa, enfeitavam o bolo e a mesa, eram distribudos entre os convidados  sada da festa, e ainda sobrava uma quantidade que alimentava interminveis brincadeiras pelos meses afora -- palhaos divertidos, mosqueteiros de chapu de penacho, ndios, caubis, bailarinas, baianas de colares de voltas, damas antigas de leque e peruca... No almoo do Dia das Mes, vov Nenm promovia uma inacreditvel empanturrao familiar. Em junho, era nossa fornecedora de fogos, doces, chapus e fantasias de caipira, rolhas queimadas para pintar bigodes e 
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costeletas, lanternas japonesas de papel dobrvel, fieiras de bandeirinhas coloridas. s vsperas do carnaval, vov surgia com duas malas cheias de mscaras, reco-recos, lnguas-de-sogra, apitos, cornetinhas, estalinhos, sacos de confete, pacotes de serpentina... Na Semana da Ptria, l vinha o verde-e-amarelo... Dia de Cosme-e-Damio era sinnimo de farta distribuio de balas e docinhos. Mas entre todas as festas, uma era imbatvel: passar a Pscoa em sua casa em Petrpolis era inigualvel. De vspera, as crianas faziam ninhos enfeitados com flores, que amanheciam cheios de ovos de chocolate e ovos de galinha cozidos, pintados a mo com anilina das mais variadas cores (quando crescamos, ajudvamos a fazer). A mesa do caf tinha chocolate quente e grosso para a gente beber, bolo de chocolate, coelhinhos de feltro feitos por vov, enfeitando tudo... No almoo, geralmente tinha coelho. E algumas vezes fomos acordados cedinho por ela, para brincarmos com filhotes de coelhos soltos pela casa, brancos, cinza ou malhados, os olhos vermelhos, o focinho tremelicando, o corpo quente e macio, as unhas compridas que arranhavam quem no tinha cuidado.
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  S no Natal ela era discreta -- nunca perdoou a mim e a mame por termos estragado a festa dela em 1941, quando eu resolvi nascer bem no dia 24, quase um ms antes da hora prevista. Recusou-se a aceitar o fato, s foi me visitar no meio de janeiro. E, a partir da, no fez mais festa de Natal. Ia l para casa cedinho no dia do meu aniversrio e passava para minha me a responsabilidade de anfitri: sentava-se na poltrona da sala como uma imperatriz num trono e queria ser servida em tudo, num dia daqueles! No mximo, em gesto de superior condescendncia, dignava-se a fritar umas deliciosas rabanadas no final da tarde. Mas passava o dia como um barril de plvora, prestes a explodir e estragar a festa de todo mundo. O jeito de escapar era irmos passar o meu aniversrio e Natal em Vitria, com os outros avs, coisa que adorvamos porque significava a antecipao oficial das frias de vero em Manguinhos.

               oooooooooooo

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Primeiras histrias
  
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 *Eu sozinho menino entre mangueiras 
 *lia a histria de Robinson Cruso, 
 *comprida histria que no acaba mais*.
  
 *E eu no sabia que minha histria 
 *era mais bonita que a de Robinson Cruso*.

 (*Infncia*, Carlos Drummond de Andrade.)
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  Vero e Manguinhos exigem um captulo  parte. Sem eles eu no escreveria o que escrevo. Foram a principal fonte na qual me alimentei de histrias e do prazer de ler pela vida afora.
  Sempre que podamos, nos reunamos em casa de meus avs maternos, em Vitria, para o Natal -- que nunca, em hiptese alguma, dispensava entre os presentes alguns livros e o *Almanaque do Tico-Tico*, com as aventuras de Chiquinho, Benjamin e Jaguno ou de Z Macaco e Faustina alm dos meus preferidos, Reco-Reco, Bolo e Azeitona. E, logo depois (com sorte, at mesmo antes do Natal), ns todos amos para Manguinhos, uma praia selvagem e quase deserta num povoado de pescadores, a 30 quilmetros ao norte da capital. *Ns* ramos os filhos deles e as respectivas famlias. Os filhos de meus avs eram sete. Os netos, inmeros. Minha me teve nove filhos. O irmo dela, que foi morar em Governador Valadares, teve quatorze. Outro, que casou com uma gacha e se mudou para o Rio Grande do Sul, teve sete. E assim por diante. 
  No vero, quem podia, vinha. Primeiro, a Vitria, para a casa onde moravam meus avs. Depois, um belo dia, aparecia um caminho fretado para nos buscar, que ningum tinha carro... Na bolia, ao lado do Geraldo, o motorista, iam vov Ritinha e as grvidas daquele ano, com os caulas no colo. Na carroceria, em cima de colches, trouxas, malas, mveis, sacos de mantimentos, caixotes de livros e capoeiras cheias de galinhas e patos, encarapitavam-se os homens e as crianas. L ficvamos dois meses, amontoados numa casa de quatro quartos e ampla varanda, com crianas se espalhando para dormir em esteiras e redes
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por todo canto. Tinha mar na porta, rvores no quintal, mata nos fundos, riozinho para pescar, carroa, animais, frutas. E um monte de livros, que ningum dispensava levar uma boa proviso e era um troca-troca de dar gosto...
  S no tinha luz eltrica. Jantvamos cedo,  luz do dia. Depois, em volta de uma fogueirinha, ouvamos e contvamos histrias. Em noites de luar, saamos para caminhar na praia e fazamos concursos de quem contava a histria mais bonita. Cada adulto tinha sua especialidade. Vov Ceciliano contava casos de verdade, lembranas riqussimas de uma vida muito interessante e variada, das experincias em sala de aula, dos polticos que conheceu (foi prefeito de Vitria duas vezes), dos tempos em que abria estrada de ferro pelo meio da mata, conhecia ndios, participava de caadas... Vov Ritinha contava maravilhosas histrias do folclore, recheadas de jabotis e macacos, de vigrios, juzes e almas do outro mundo, povoadas por Pedros Malasartes e Joes Bobos. Tia Dilah tinha um interminvel repertrio de histrias de trs irmos que saram pelo mundo em busca de aventuras. Tio Nelson vinha com a maior coleo que eu j ouvi de piadas escatolgicas, e nos encabulava e fascinava com seus personagens que tinham bunda, que faziam coc e xixi, numa poca em que a gente nem podia dizer esses nomes na frente dos outros, sob pena de ganhar pimenta na boca. Tio Guilherme era folclorista, cantava congos, tangolomangos e romances tradicionais ibricos, falando na Nau Catarineta ou em Juliana e no Senhor Dom Jorge. Tio Milton contava "causos" mineiros, tio Hilson tinha um senso de humor invulgar que me deixou a vida toda apaixonada por ele, tia Dinorah trazia as histrias dos ndios e caboclos que eram seus alunos no grupo escolar  beira do rio Doce. 
  Quanto a meus pais, ancoravam em leituras suas histrias -- que constituam um ritual noturno quotidiano e no apenas no vero em Manguinhos. Mame tinha toda a coleo de contos de fadas de Andersen, Grimm e Perrault, tanto nos livrinhos da Biblioteca Infantil Melhoramentos (as ilustraes coloridas de *O patinho feio* e *Branca de Neve*, por exemplo, so ntidas em minha memria at hoje) como nos *Contos do Arco-da-Velha*, da *Carochinha*, da *Baratinha* e outros, coligidos por Frederico Pimentel para a Editora Quaresma. Acho que ela preparava de dia a lio, lendo os livros, porque de noite sempre lembrava tantos detalhes para contar nas histrias, eram 
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to variadas... E, s vezes, quando pedamos para repetir uma favorita, deixava para o dia seguinte. Entre minhas prediletas, lembro *A bela e a fera, As quatro penas brancas, Pele de asno, A moura torta*... E umas maravilhosas, de bichinhos, que ela contava como ningum, desde que eu era bem pequenina  *Dona Baratinha, A galinha ruiva, A galinha que criou um ratinho, Os trs porquinhos, Os gatinhos levados*... Papai tambm contava alguns desses contos tradicionais quando estava em Manguinhos -- lembro perfeitamente de alguns que eram sempre contados por ele: *O gato de botas, O soldadinho de chumbo, Os seis companheiros, As roupas novas do rei*... Mas no Rio seu repertrio era diferente e fascinante -- com suas prprias palavras, mas mostrando as gravuras dos livros, ia me apresentando os clssicos: *As 1001 Noites* (principalmente *Ali Bab e os 40 ladres, Simbad, o marujo, Aladim e a lmpada maravilhosa), Gulliver em Liliput, Dom Quixote, Robinson Cruso*... Em cima da sua mesa de trabalho, uma estatueta de bronze (que hoje mora no escritrio do meu irmo) nos encantava, com Dom Quixote montado em Rocinante, seguido por Sancho no burrico. 
  Tudo o que eu queria era aprender logo a ler, para entrar naquele mundo. Acabei aprendendo muito cedo, com menos de cinco anos, mas no lembro como foi.
  Eu estava no jardim-de-infncia da Escola Machado de Assis, escola pblica em Santa Teresa, no Rio. A professora se chamava Dona Jurema. Lembro muito bem dela e da escola, incluindo o enorme ptio coberto onde tnhamos recreio quando chovia, e o vidro da clarabia no teto, por onde a gente via o cu quando brincava de roda e ficava deitada no cho, cantando "*Carneirinho, carneiro*", depois do pedacinho que dizia: "... para todos se deitar..."
  Mas no lembro da alfabetizao.
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  Lembro que para a festa de fim de ano, pouco antes de eu fazer cinco anos, Dona Jurema distribuiu um bilhete para a gente levar para os pais, e nele dizia a minha me que devia mandar papel crepom de alguma cor que eu no lembro, para fazerem minha fantasia de dlia, porque o teatrinho ia ser sobre um jardim e eu fazia papel de flor. Eu li e no gostei, no queria aquela cor, queria amarela e reclamei. Ela levou um susto. Como  que eu sabia o que estava escrito? Ainda por cima, manuscrito... Recolheu o bilhete e mandou outro, convocando minha me para uma conversa no colgio.
  Mame veio e levou outro susto. Tambm no sabia que eu estava lendo fluente. E ainda levou uma bronca da professora, porque no se devia puxar assim por uma criana, isso podia fazer mal no futuro, etc. Era o ano de 1946 e se acreditava nisso -- Piaget e Emlia Ferreiro ainda no tinham mostrado ao mundo como  freqente num ambiente letrado que uma criana descubra por si como se l. 
  Mame jurou que no tinha culpa. As duas ento me testaram e descobriram que eu lia tudo. Moral da histria: fui premiada com a fantasia amarela, como eu queria. Em seguida, no meu aniversrio de cinco anos, ganhei meu primeiro *Almanaque do Tico-Tico* e o livro fundador, que marcaria minha vida para sempre, *Reinaes de Narizinho*.
  Acho que, de incio, meu pai e minha me deviam ler junto comigo um livro daqueles, to grosso... no lembro. Mas sei que conversvamos muito sobre a leitura, eu estava muito interessada em descobrir se em Manguinhos no haveria um jeito de entrar 
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no Reino das guas Claras, e queria saber quem era Tom Mix... Eles me explicaram, me levaram para ver desenho do Gato Flix num cinema chamado Trianon, com um letreiro: "Sesso passatempo -- o espetculo comea quando voc chega". E sei que, ao menos algumas partes, eu lia sozinha  no esqueo do livro, da sensao de pegar um po quentinho e cheiroso, com manteiga derretendo, e ir deitar na rede ou sentar de travs na poltrona, com o livro na mo, o corao batendo forte, assustada porque Dona Benta estava correndo perigo, sentada no p do Pssaro Roca, pensando que era uma rvore... 
  Depois disso vieram outros livros -- vrios de origem alem, como *Juca e Chico* (em traduo de Olavo Bilac, rimando "a viva Chaves" com "gostava de aves"), *Sinhaninha e Maricota*, o assustador *Joo Felpudo*, que me ameaava de flagelos terrveis, caso eu no comesse tudo ou andasse distrada ("Chamavam-no Cheira-cu./ Andava de du em du / de narizinho para o ar...", conforme os versinhos traduzidos por Guilherme de Almeida). E, como eu gostava de poemas, logo me ensinaram vrias coisas para recitar. Por exemplo, textos de Bastos Tigre, que sei de cor at hoje e entre os quais fao questo de citar um:
  
A empada
  
 Eu comi ontem no almoo 
 a azeitona de uma empada 
 depois botei o caroo 
 sobre a toalha engomada.
 Mas a mame logo nota 
 e me ensina com carinho: 
 "O caroo no se bota 
 sobre a toalha, benzinho." 
 O que ela me diz eu ouo 
 sempre com toda ateno, 
 e perguntei: "O caroo, 
 me, onde boto ento?"
 "Toda pessoa de linha, 
 de educao e de trato, 
 o osso, o caroo, a espinha, 
 pe no cantinho do prato."
 Eu depressa lhe respondo, 
 com respeitoso carinho: 
 "Mame, meu prato  redondo, 
 meu prato no tem cantinho".

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(Palmas das visitas!!!)
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  Chamo a ateno da distinta platia contempornea para o fato de que, apesar de toda a inteno didtica de inculcar boas maneiras nos pimpolhos e frisar que uma resposta  
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me deve ser dada "com respeitoso carinho", tratava-se de uma poca em que as pessoas no se enchiam de falso moralismo e sabiam portugus: ningum empobrecia a lngua *colocando* caroo de azeitona em lugar nenhum, mas *botava* mesmo, e verbos como *botar*, *pr* e *meter* no tinham virado palavres a serem evitados a todo custo por zelosos guardies de *colocaes*.
  De qualquer modo, minha atrao pelos versinhos era to grande, que logo aumentei o repertrio com *Poesias infantis*, de Olavo Bilac, livro que adoraria reencontrar hoje. Principalmente para ver as ilustraes, j que os poemas em si, bem, no  para me gabar, no, mas sei quase tudo de cor e salteado, conforme j demonstrei diante de um perplexo auditrio na Universidade de Bauru, em inesquecvel dobradinha com Ruth Rocha, que recitou *Tertuliano*, de Artur de Azevedo.
  Assim iniciada, em comeo de 1948, nos mudamos para a Argentina, onde meu pai foi trabalhar. L morei dois anos, aprendi castelhano e tive acesso a um mercado editorial muito variado, cheio de livros infantis belssimos, coloridos, de pginas recortadas e at com *pop-up* -- tive uma inesquecvel *Bela Adormecida* que se erguia do plano, no meio de um emaranhado de rosas e espinhos, sendo beijada por um prncipe enquanto um cavalo branco pastava ao lado. E uma *Cinderela* (que antes do filme do Disney s era chamada de Gata Borralheira), em que a transformao da abbora em carruagem se fazia de uma pgina para a outra, saltando deslumbrante da folha impressa. Continuava lendo meus Lobatos em Buenos Aires e mais uma poro de outros livros, muitos deles meio chatos, cvicos e educativos, de um autor chamado Constancio C. Virgil -- coisas lacrimejantes como *Los Hijos del Hroe*, que encheram de melancolia minhas tardes de catapora num quarto dos fundos, no inverno, dando para um paredo cinza. Tristeza que em fins de 1948 foi ainda reforada pelas notcias do Brasil, falando em duas perdas dodas.
  A primeira foi a morte de meu av Rozendo. A segunda, a morte do cachorro Buck, que ficara no sul da Bahia, na fazenda de meu tio-av Lol (inesquecvel figura que, muitos anos mais tarde, alm de virar amigo de Sylvia Orthof, serviu de inspirao fsica para o vov Carlo, de *Aos quatro ventos*). 
  Buck, vermelho, um dos primeiros *irish-setter* a vir para o Brasil, foi adquirido numa troca com nosso vizinho em Santa Teresa, o embaixador ingls. Dei a ele um filhote de
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jaguatirica que papai ganhara no jornal e trouxera para casa, mas que crescia e virava grande devorador de carne, e ganhei esse cachorro com nome em ingls, tributo a Jack London, um dos autores prediletos de meu pai. Mas s muito mais tarde, na adolescncia,  que eu iria ler *Chamado selvagem* e entender toda a extenso da homenagem.
  Nessa poca, continuava mergulhada em Monteiro Lobato, f de Emlia, Narizinho e Pedrinho, meus amores absolutos. Em segundo lugar, meu favorito era um livro de capa dura, sobrecapa em papel *couch* e fascinantes ilustraes a trao (talvez do Caryb), chamado *Cuentos de To Macario*, de uma autora brasileira publicada na Argentina, Ldia Besouchet. Eu sabia trechos de cor (comeava assim: "Como conoc a mi to Macario..."). Recentemente, a Nova Fronteira o editou no Brasil e sua releitura me proporcionou uma emoo indescritvel, o reencontro com um personagem mgico e marcante, perdido na memria. 
  Um dia, descobri que a autora do livro era algum que eu conhecia e adorava, a Ldia, mulher do Newton Freitas (que eu igualmente amava de paixo), amigos de papai e freqentadores da nossa casa. Comecei a conversar com ela sobre livros, leitura e escrita. Ela me falou num escritor que era o maior amigo do Newton, Rubem Braga, mas disse que ainda era cedo para eu ler as coisas dele, s quando crescesse. E, no meu aniversrio de sete anos, Ldia e Newton me deram um presente marcante e inesquecvel -- um dirio!
  No era um dirio qualquer. Era especial, s meu. Um fichrio pequenino, preto, de trs furos, de onde eu podia tirar e guardar tudo o que quisesse trancar para ningum ver, e onde eu poderia acrescentar novas folhas, para que ele durasse para sempre. Na primeira pgina, todo desenhadinho a aquarela, havia um retrato de uma menina que era eu, cercada de anjinhos entre coqueiros  beira-mar. Em volta estava escrito:
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DIRIO DE ANA MARIA, e embaixo, 1948, cada letra e algarismo de uma cor. A aquarela foi feita de encomenda por um pintor argentino amigo deles e de meus pais, Caryb, que nesse tempo ainda no tinha virado baiano nem ilustrador de Jorge Amado e Garca Mrquez. Sa escrevendo furiosamente, durante anos, at que na adolescncia, quando eu tinha uns 13 ou 14, uma empregada chamada Eni deu uma faxina geral na casa e jogou fora toda aquela papelada velha. Foi to grande minha dor pela perda e pelo fato de que a Eni no foi punida, que eu no quis mais saber de fazer dirio por muito tempo. S em 1982, numa viagem ao Mxico, querendo anotar mil coisas, recomecei aos poucos a encher meus caderninhos de escritos quase dirios...
  Mas esse aniversrio dos sete anos ainda me trazia outra surpresa. Meus pais me deram o que talvez tenha sido o livro mais lindo que j tive -- e conservo at hoje. Um Robinson Cruso integral, imenso, ilustrado pelo Caryb, num exemplar numerado, fora do comrcio, colorido a mo pelo autor. Leitura para quase um ano, releitura para sempre... Seguramente veio da meu fraco por livros de ilhas pela vida afora -- de *A Ilha do Tesouro* at o recente *A Ilha do dia anterior*, passando pela *Famlia do Robinson Suo*, pela *Utopia*, pelo *Gulliver*, pela *Ilha misteriosa*, pelos *Contos dos Mares do Sul*, pelas *Ilhas na corrente*, por *Lord Jim*, pelo *Senhor das moscas*, e tantos, tantos outros.
  Essa tambm foi a poca em que descobri *Os desastres de Sofia* e as outras obras da Condessa de Segur. Nem precisa
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dizer que "meninas exemplares" no me atraam e eu torcia pela endiabrada Sofia.
  Em outubro de 1949, de volta ao Brasil, morando em Vitria, fiz minha primeira comunho. Para festejar a ocasio, a madrinha de minha irm, Dona Dudu, me presenteou com um livro que me trouxe um impacto marcante, de tipo bem diferente -- *A vida de Joana d'Arc*, de rico Verssimo. 
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No gostei, quando recebi. Uma vida de santo? Daquela grossura? Nem abri. Depois, no resisti  curiosidade, era bonito, capa dura e sobrecapa brilhante, tinha umas ilustraes em cores com uns vermelhos lindos... Passei os olhos no incio e uma imagem do texto me agarrou. Assim como quem no queria nada, de repente o autor perguntava: que eram aquelas duas pombinhas brancas que vinham saltitando pelas pedras do caminho? No, no eram pombinhas, eram os ps descalos da menina Joana!
  Mas que maravilha! Ento se podia escrever assim? No larguei o livro. No larguei o rico nunca mais, virou um amigo, um autor querido. Li com paixo todos os livros dele quando cresci -- gostando mais de uns que de outros, naturalmente. Dei a meus filhos Rodrigo e Pedro o nome de seus personagens e sempre sonhei em conseguir escrever alguma coisa 
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que desse vida  terra e  gente annima que nos fez, da mesma forma que ele conseguiu em *O tempo e o vento*. E agora, depois dos cinqenta, de alguma forma tentei fazer isso ao narrar a saga de cinco sculos de histria de um povoado praieiro. Na hora de escolher o ttulo, depois de muita hesitao, pensei em usar um trecho do Eclesiastes. Fui l, procurei, achei, pincei uma epgrafe, batizei o livro de *O mar nunca transborda*. Sabia que tinha recorrido ao mesmo pargrafo de que Hemingway se serviu para dar ttulo a seu *O sol tambm se levanta*. Mas nem desconfiava que meu subconsciente se manifestara e eu estava homenageando o rico tambm. Semanas depois do livro publicado, quando fui dar *O tempo e o vento* para minha filha Lusa ler, abri a primeira pgina e vi que tambm ele escolhera a mesma epgrafe. Num trechinho pequeno, Hemingway pegou o sol, 
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rico ficou com o vento, eu escolhi o mar -- e as geraes continuam se sucedendo sobre a terra.

               oooooooooooo
  
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Felicidade clandestina
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 *No era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante*.

(*Felicidade clandestina*, Clarice Lispector.)
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  De volta ao Rio em 1950, vim morar em Ipanema, estudar na Praa General Osrio, Colgio Mello e Souza. Os donos do colgio eram de uma famlia de educadores e escritores. Eu era boa aluna e vivia ganhando prmios  geralmente livros, da famlia. No quarto ano primrio, dona Carolina me deu um livro encantador -- *Histrias do rio Paraba*, do pai dela (um Mello e Souza cujo prenome, infelizmente, esqueci), cheio de lendas de Taubat, Guaratinguet, Aparecida e de outros lugares do vale do Paraba. Como eu gostei, me indicou *Nas Terras do rei Caf* e toda a srie de Taquarapoca, do Francisco Marins. Li e reli um certo *Memrias de um bicho-carpinteiro*, que adorei, no fao a menor idia de quem seja o autor. Na quinta srie, enquanto meu irmo Nilo ganhava de sua professora de escola pblica, dona Helosa, o *Corao*, de Edmundo de Amicis (um livro que me transportou  Itlia em sucessivas leituras), entre os prmios dos Mello e Souza, veio *O homem que calculava*, de Malba Tahan, tambm da famlia. Foi um fascnio! Sa atrs do resto da obra: *Lendas do povo de Deus*, *Maktub* e outros... Todas essas histrias de derviches e caravanas, cheias de sabedoria oriental, que agora as pessoas lem no Paulo Coelho, crentes de que esto descobrindo a plvora.
  Era um contato com um povo diferente, outra cultura, que eu s conhecia das histrias das *1001 noites* que meu pai contava. Fui conversar com ele, que me indicou mais alguns livros sobre povos distantes. Vrios (*O Sheik, O filho do Sheik, Beau Geste*) me abriram as portas de fantsticas colees de aventuras (*Os audazes, Terramarear, Paratodos* e outras) que eu iria devorar nos anos seguintes. Mas um deles me revelou um autor fecundo, Rudyard Kipling, e foi leitura marcante na pr-adolescncia -- *Kim*. Em suas pginas, eu viajava pela ndia e seguia um homem santo por toda parte, entendia a relao de um menino com um velho como se fosse a minha com meu av, uma amizade feita de troca de afeto, de carinho e aprendizado. Li, reli, depois vi o filme, que adorei.
  A essa altura, a famlia toda discutia as leituras. Papai estava satisfeitssimo com o sucesso de suas indicaes, mas aflito com a responsabilidade de manter o padro e farto de no saber que outro livro podia me indicar. O duro era satisfazer minha fome de "outro stio do Picapau Amarelo", quer dizer, livros que fossem uma coleo com os mesmos personagens, 
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num lugar que eu ficasse conhecendo e onde eu "pudesse morar". 
  Mas um dia ele podia ter gritado "Eureka!". Porque se lembrou de botar em minhas mos um exemplar de *As aventuras de Tom Sawyer*, ao qual se seguiram todos os outros do mesmo escritor, at os contos para adultos, que me arrancaram gargalhadas.
  Se Lobato foi o autor da minha infncia, Mark Twain ia ser o guia da minha pr-adolescncia. Com Tom e Huck, morei no Mississpi, desci o rio em balsa, ajudei escravo a fugir, pesquei, dormi debaixo das estrelas, preguei peas nos outros, fui absolutamente moleca, livre, sem peias. A atrao que eu senti por Huck (como a que pouco antes tivera por Peter Pan, via Lobato) era j prxima da tpica paixonite adolescente que vinha a caminho logo, logo, por meninos de verdade. E minha amizade com Tom Sawyer incorporava um trao que sempre marcou minhas amizades pela vida afora: a indicao de livros bons. Como Tom adorava ler e vivia falando em um monte de livros, sa atrs dos que eu no conhecia. E fui descobrindo *O conde de Monte Cristo, O mscara de ferro, Os trs mosqueteiros*, enfim, a obra de Dumas pai e Dumas filho, e
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mais Emlio Salgari, Rafael Sabatini e quantas outras aventuras de capa-e-espada se ocultassem nas colees da Nacional e da Vecchi. E mais: piratas, corsrios e capites para todo gosto, tarzans em todas as selvas, pimpinelas escarlates e tulipas negras em meio a revolues, lobos-do-mar e baleias brancas pelos sete mares, tesouros, ilhas, desertos... E o oeste bravio de Winnetou e os bosques amenos do *O ltimo dos moicanos*, mais os delrios cientficos de Julio Verne, as dedues inteligentes de Sherlock Holmes, a ousadia misteriosa de Arsene Lupin. Sem esquecer um nicho muito especial para a estante da Idade Mdia, com Walter Scott  frente 
 (*Ivanho* e *O talism*), pelo meio de todas as sagas dos cavaleiros da Tvola Redonda, e dos Doze Pares de Frana, em que flechas negras e cruzadas coloriam os reinados de Artur, Carlos Magno ou Ricardo, Corao de Leo, e competiam com o mais adorado de todos os meus heris -- Robin Hood. Depois de esgotar todas as verses de suas aventuras em portugus, encontrei na biblioteca da Cultura Inglesa uma enorme, em ingls, cujos primeiros captulos traduzi penosamente, a mo, em grossos cadernos, para que meus irmos e amigos lessem -- isso mais ou menos por volta dos meus 14 anos.
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  Enquanto isso, no colgio, minhas professoras de portugus no ginsio (dona Las e dona Anris) iam correndo conosco as pginas das antologias de leitura e nos apresentando a um acervo bsico de poetas e prosadores entendidos como um patrimnio comum de clssicos que era essencial conhecer. Ao mesmo tempo, exigiam redaes e anlises que nos faziam compreender a lngua por dentro, suas belezas e possibilidades. Um de meus textos foi to elogiado e premiado que o mostrei em casa. Meu tio Nelson, que estava l, o levou para tio Guilherme, folclorista -- e essa acabou sendo minha estria literria. Devidamente assinado e aumentado, por encomenda da revista *Folclore*, saiu publicado meu *Arrasto*, sobre as redes de pesca artesanal em Manguinhos. Para mim, o orgulho supremo foi que nada na revista o caracterizava como tendo sido feito por uma menina de doze anos. 
  Enquanto isso, Madame Caroline, de francs, nos fazia ler trechos de Daudet e Anatole France, poemas de Verlaine e Musset -- leituras que depois eu discutia com minha av Nenm, da mesma forma que, com vov Ceciliano, comentava por cartas durante o ano e ao vivo nas frias tudo o que me atraa ou intrigava. 
  Tive com meu av uma relao privilegiada, em que ao afeto enorme se somava a certeza de um intercmbio de inteligncias. Desde pequena, eu queria ser uma terra frtil para to magnfico semeador. (E essa frase agora me fez lembrar *Os sermes* de Vieira, que meu pai lia e relia, anotando sem parar a edio completa, e meu av tambm admirava muito). Saamos para andar sozinhos no mato: ele me ensinava a reconhecer famlias de plantas, a distinguir passarinho pela plumagem, pelo canto e pelo ninho, a me orientar com o sol, a no me perder entre as rvores seguindo imperceptveis sinais que me deixava, como se fssemos ndios. De noite, me mostrava as constelaes no cu, contava os mitos ligados a elas. Se a porteira rangia, se a lenha no fogo chiava, se o eco respondia  nossa voz, se o esguicho de regar as plantas no jardim formava um arco-ris, me fazia descobrir o porqu. Os princpios da fsica eram uma grande histria do mundo, os jogos matemticos tambm. Nas sombras do lampio da sala, entre laranjas, limes e abrics-da-praia, vamos rbitas de planetas e entendamos eclipses. Brincvamos de tringulos com Pitgoras, de nmeros com Eratstenes, de afundar
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objetos na bacia com Arquimedes, de deixar cair papis e laranjas com Newton. E como depois, nas obras de Monteiro Lobato, Dona Benta fazia algo parecido com os netos, eu achava que todo av era sempre assim. Natural que, ao crescer, continussemos prximos. Trocvamos indicaes de livros por carta, recortvamos e nos envivamos crnicas e artigos de jornais, comentvamos o que acontecia no pas. Quando caiu a ditadura de Batista em Cuba, comemoramos juntos a Revoluo -- e ele, que nunca bebia, tomou champanhe! Aos oitenta anos, quando minha av morreu, teve dois enfartes em uma semana. Sobrevivendo, quis se ocupar para se distrair e comeou a estudar ingls. Eu lhe mandava os livros da Cultura Inglesa, com leitura simplificada. Ele seguia adiante, passava a ler em portugus outros autores que no conhecia. Lembro que exploramos juntos a obra de Thomas Hardy, no sei quem indicou o que, mas foi uma grande descoberta para mim, at hoje um autor que me d muito prazer.  bom saber, l num cantinho, que, quando eu quiser, sempre posso reler *Judas, o obscuro* e me emocionar com sua busca.
  Devo a meu av tambm meu primeiro contato com uma editora. No fim da vida, ele resolveu escrever suas memrias, *O desbravamento das selvas do Rio Doce*, que acabaram sendo publicadas pela Editora Jos Olympio, numa coleo chamada *Documentos Brasileiros*. Essa foi uma srie importantssima que, ao lado da *Biblioteca Histrica Brasileira*, da Martins, e mais a *Brasiliana*, da Companhia Editora Nacional (livros que se repetiam pelas estantes de meu pai e meu av), desempenharam um papel crucial na afirmao de nossa identidade cultural e deixaram uma contribuio preciosa para que o Brasil se conhecesse e se pensasse. Pois bem, em determinado momento do processo de produo do livro do meu av, fui com meu pai levar ou pegar umas provas na editora. 
  Foi um deslumbramento! Eu no sabia que aquilo existia. Um escritrio cheio de livros, com gente que falava em fazer mais livros, em meio a um entra-e-sai permanente de gente que fazia livros. Foi o primeiro lugar na minha vida em que, assim que entrei, tive a sensao: "Quando eu crescer, quero trabalhar nisso". Mas no passou de uma sensao. To forte, porm, que me fez voltar l vrias vezes, independente do livro do meu av, s para bater papo, tomar cafezinho, s 
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vezes at almoar. No fim de algum tempo, alm da inesquecvel figura do J.O., eu conhecia o Daniel, o Athos, j tinha conversado com Otvio Tarqunio de Souza e Lcia Miguel Pereira, sido apresentada a Raquel de Queirs e Drummond. Mal desconfiava eu que, muitos anos depois, ia saborear minha relao com a Editora Salamandra, em que o filho (Geraldo) e os netos (Marcos e Toms) de Jos Olympio tratam to bem a mim e aos meus livros. 
  Nesse tempo, no colgio, isso ainda era bem distante. Importante era a inesquecvel Mrs. Libnio, que, num ato de f na capacidade dos alunos, nos fazia aprender poemas ingleses em suas aulas -- na segunda srie ginasial, coube-me declamar Shakespeare no original: o discurso de Marco Antnio no tmulo de Csar. Filha de poltico, fiquei to deslumbrada com a inteligncia daquela oratria, que sa procurando ler outras coisas do autor, inaugurando um contato ntimo e duradouro, amor de minha vida, coisa para sempre. Estou absolutamente convencida de que ningum, nunca, alcanou a genialidade dele e nenhum outro clssico (fora Cervantes e Homero, que tambm moram no meu corao, mas que tm menos livros) me fala to de perto e de modo to permanente. Reler esse trio -- ao qual depois acrescentei Ea e Machado -- passou a ser uma constante em minha vida de leitora. Mas isso  coisa para mais tarde. Voltemos ao meu momento de menina-moa.
  Pois , porque a essa altura, j se aplicava perfeitamente a mim o poema de Machado de Assis:
  
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 Est naquela idade incerta e duvidosa 
 que no  dia claro e no  alvorecer, 
 entreaberto boto, entrefechada rosa, 
 um pouco de menina e um pouco de mulher.
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  Essa quadrinha estava no incio dos livros da *Coleo Menina-e-Moa*, que, ao lado da *Biblioteca das Moas* (M. Delly, Henri rdel, Elynor Glyn, etc.), comecei a explorar tambm por essa poca, junto com minhas colegas de ginsio. Trocvamos livros e opinies de leitura, como trocvamos retratos de artistas de cinema recortados de revistas importadas, letras de msicas, informaes sobre os garotos. Tudo parte da vida, fluindo no mesmo leito de descobertas. 
  Alm do colgio, eu estudava na Cultura Inglesa e na Aliana Francesa. Sete anos de ingls e seis de francs (mas com aulas mais compridas...). E tome Corneille, Racine, Victor Hugo... E mais Dickens, Foster, Jane Austen, Charlotte e Emily Bront -- com que prazer eu li esses ingleses! Devorei sucessivamente *Oliver Twist, Uma histria em duas cidades, Nicholas Nickleby, David Copperfield, Grandes esperanas*, vida por liquidar todo o Dickens. Depois, foram aquelas mulheres inglesas maravilhosas do sculo XIX, to especialmente prximas de mim, eu nem desconfiava que era por serem mulheres e termos sensibilidades irms... livros como *Persuaso* ou *Orgulho e preconceito, Razo e sensibilidade* me abriam as portas para espiar uma sociedade de relaes sutis e complexas que me fascinava. Amei e me identifiquei com a independncia de *Jane Eyre* sobrevivendo de seu prprio trabalho, tive pelo adulto e arredio Heathcliff minha ltima paixo literria adolescente, entre as urzes das charnecas bravias (ai, que palavras mgicas!) de *O morro dos ventos uivantes*.
  A partir da, nem d mais para tentar seguir minhas leituras, que se espalharam pelos quatro cantos. Li *Pollyana* e *Mulherzinhas* (sonhando em ser independente e escritora como a Jo), li romnticos gua-com-acar como Macedo (*A moreninha* e *O moo loiro* me deliciaram), li Alencar que no me entusiasmou, li todos os *best-sellers* da poca, Cronin, Pearl Buck, Somerset Maughan, que nos chegavam em edies da Globo gacha... Li gibis e histrias em quadrinhos de todo tipo, dos super-heris (Mandrake, Superman, Fantasma, Capito Amrica, Nick Holmes, Terry e os piratas) aos infantis (Pernalonga, Tom e Jerry, Bolinha e Luluzinha, Laura Jane e Tiquinho), dos *Clssicos Ilustrados* e *Sries Sagradas* da 
 EBAL a *Grande Hotel* e s fotonovelas que surgiam. Li bula de remdio e catlogo telefnico. Li tudo o que me indicaram.
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  E como meus amigos liam! Alm disso, discutiam as leituras... Mas no ficvamos s nisso. Ler no era nada demais, era parte da vida. A vida, sim,  que era atraente e hipnotizante. Aos 13 anos, ganhei um concurso de rock em Copacabana, danando com um dos meus maiores amigos da vida inteira, Roberto Pontual, ento com 16! Todo fim de semana tinha festa, pelo menos um "arrasta" (de arrasta-p ou arrasta-mveis?). Danvamos, amos a matins de cinema aos domingos, no perdamos uma praia. Descamos as ondas, "pegando jacar" com ou sem prancha (de madeira). Meu colgio ficava na quadra da praia e, nos dias quentes, amos de mai por baixo do uniforme -- sempre dava para um mergulhinho. Sbados e domingos, o Arpoador nos esperava com suas guas claras, suas moas elegantes e lindas que nos serviam de distantes modelos (Ira, Cookie, Marina...) e uns rapazes mais lindos e mais distantes ainda, adultos que nem olhavam aquelas pirralhas embevecidas. Havia um louro atltico, apelidado "21", que passava pasta-d'gua no nariz e jogava frescobol. E havia a turma da caa submarina, com dois grandes "pes" -- o irmo de Marina, Arduno Colassanti, e Bruno Hermanny, ao qual s vezes, de tarde, vinha se juntar seu cunhado, cuja palidez de boate contrastava com o bronzeado esportivo dos outros, mas era o homem mais bonito em que eu j tinha posto os olhos. Chamava-se Tom Jobim e sua msica ia iluminar a vida de ns todos para sempre, mas eu nem desconfiava. Para mim, fazia parte das belezas naturais do meu bairro. 
  Na minha turma do colgio, havia uma menina que gostava de tocar violo, irm de uma modelo de Jacques Fath, sucesso em Paris. S viemos a ser muito amigas anos mais tarde, no exlio, e at hoje no me conformo por que Nara Leo foi-se embora to cedo. Compartimos alegrias e tristezas, tivemos gestaes paralelas (de Isabel e Pedro) e partos com o mesmo Dr. Bazin. Trocamos afeto e informaes corriqueiras -- como receitas culinrias --, mas tambm nos apoiamos em momentos duros de uma ptria madrasta. Mas a primeira dica que ela me deu, eu no aproveitei: foi a de um professor de violo, Carlinhos Lira. Fui l, tive uma aula, achei que no tinha jeito, desisti. No desisti, porm, dos livros que ela me indicou, nem dos filmes que me recomendou. E devo a ela revelaes de um mundo musical que ajudou a tecer minha vida, da 
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bossa nova a Chico, passando por Fagner, pelo Zicartola e pelo Opinio (com todos os baianos que ele trouxe para o sul). 
  Quer dizer, ler nunca me isolou nem me atrapalhou para dar valor s boas coisas da vida. Pelo contrrio, me deu assunto e condies de apreci-las melhor. Alm de me ajudar a enfrentar as dores da adolescncia, que no eram pequenas: eu me achava feia, sem graa, incompreendida. Tinha vontades sbitas de chorar -- e s vezes chorava escondida, quase uma hora. Tinha cimes de minha irm, que era lindssima. Tinha vergonha de fazer carinho em minha me e achava que ela no queria saber de mim, porque no ficava me beijando e abraando como eu gostaria. Tinha medo de ficar sozinha quando crescesse. A sorte  que, quando a barra pesava, livro ajudava. Com um livro eu sonhava, viajava, vivia outras vidas. Voltava aliviada e mais forte para o dia-a-dia.
  Estudei no Mello e Souza at completar o ginsio, entre amigos, livros, filmes, incipiente bossa nova, *jam-sessions* em sesses vespertinas no Beco das Garrafas ou nos apartamentos dos inmeros amigos. Nana Caymmi era do mesmo colgio, mas de uma srie mais adiantada, no andava na mesma turma. O pai dela, porm, o velho Dorival, me foi apresentado por meu pai um dia numa festa. Mas nem pude tietar como deveria -- porque na mesma festa conheci aquele que a essa altura era meu dolo: o cronista Rubem Braga, um urso de olhos claros e resmungos monossilbicos. 
  A revista *Manchete* estava no auge nesse tempo e toda semana trazia sua equipe de cronistas, entre os quais Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga, que eram meus preferidos. Mas nenhum me fascinava como o Braga, pela maneira como escrevia, pela sua capacidade de captar a poesia do quotidiano, de usar um fiapo de assunto e ir to longe... Eu recortava e guardava o que ele escrevia (tambm no *Dirio de Notcias*), colecionava, lia e relia, sabia trechos de cor. O que ele fazia com as palavras era to bonito que me dava um aperto no corao, vontade de chorar, de sorrir, de gritar para o cu, sei l... Sei, isso sim, que depois daquele choque infantil com o rico Verssimo e sua imagem dos ps da menina Joana d'Arc, foi com Rubem Braga que eu tive essa segunda traulitada: meu Deus, d para se fazer isso com a lngua! Mas a, fui um pouco mais adiante: se  possvel algum fazer isso, ento tambm quero.
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  No comecei a escrever nessa ocasio. Mas tive minha primeira vontade consciente de conseguir domar as palavras. Nessa idade, no sabia ainda o que fazer desse e de outros desejos. Fiquei razoavelmente amiga do Rubem, de uma estranha amizade entre uma adolescente tmida e um quarento bicho-do-mato. Creio que ele se encantava com o fato de eu conhecer to bem as suas crnicas, aquela menina magrela e desengonada fazia bem a seu ego... Algumas vezes, ao sair do colgio, o encontrei na praa em frente. Sentvamos num banco e conversvamos sobre livros, poesia, a vida em geral. Vez por outra, ele me ligava. Uma vez, eu trouxe de Manguinhos para ele um cestinho cheio de pitangas. Levei, num fim de tarde, at seu apartamento -- uma cobertura para onde acabara de se mudar. Pensei que amos comer as frutas juntos, mas ele s me deu uma, disse que eu j tinha comido por l, aquelas eram dele. Mas separou os caroos para plantar em seus jardins suspensos, onde as pitangueiras cresceram e frutificaram at sua morte. Poucos dias depois, na sada da escola, me retribuiu, trazendo-me uma flor. Mas quando telefonou l para casa, papai atendeu e ficou furioso. Proibiu que 
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ele voltasse a me procurar, na poca nem entendi bem por qu. Foi o fim de uma bela amizade.
  Mas no foi o fim de meu fascnio pelo estilo dele. Nem da vontade de escrever. Coisa que a essa altura, eu gastava em pequenos exerccios: poemas adolescentes, cartas para as primas. Depois, arrumei um namorado em Vitria. Mais cartas, agora com a responsabilidade maior de ser sedutora  distncia, com palavras. Mas nada demais. Comeava tambm a desenhar e a querer pintar, e ia desconfiando que meu caminho era por a.

               xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo

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Fim da Primeira Parte
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